Respostas

A cidade em silêncio atrás de mim. Tímida e constrangida se esconde atrás do som dos carros que aceleram pelas ruas vazias. Ela não tem as respostas que preciso, por isso, espera pelo pior. Mas quem tem as respostas?

Sobre a mesa o celular e a garrafa de vodka, ainda pela metade. Na cama, ele. Apagado. Um sono inocente. Sob meu travesseiro, meu bisturi. Presente de formatura.

Sim, ela está lá, espera minha decisão. Minha vontade. Meu julgamento. A pena dele. Eu não pedi nem jurei amor eterno. Ele me convenceu de tudo isso. Tinha minhas convicções, reais, racionais, palpáveis. Sabia o que realmente podia entregar: boa companhia, bom sexo, bom humor e uma mulher inteligente para poder se orgulhar. Não basta?

Meu mundo nunca me permitiu pensar diferente. Sempre batalhei pra chegar onde cheguei. A cada erro, uma punição. Foi assim que aprendi e cresci. Os plantões nos hospitais são o melhor banho de realidade que uma pessoa pode ter. Sangue e histórias.

Mas depois do meu doutorado, ele surgiu, num final de tarde nos jardins do Museu da República. Eu estudava, ele fotografava. Se aproximou, pediu licença e sentou na minha mesa. Me olhou com ternura e desejo, mas sem a agressividade típica dos homens que costumavam me comer com os olhos. Começou a falar e não parou mais. Citou poetas, falou de lugares que só existiam nos livros, cantarolou trechos de músicas, tentou me seduzir. Pensei: “pode ser uma boa trepada para um final de tarde”.

Após esse dia, vários encontros depois, meu céticismo foi ruindo, dando lugar a uma visão mais dócil de tudo. Segundo Aurora, minha amiga, “floresceu a menininha dentro de mim”. Passei a gostar de comédia romântica e a chorar nos filmes do Woody Allen. Beatles entrou na minha playlist e descobri Belle and Sebastian.

O tempo passa, viagens e viagens acontecem, até que num dia, o pedido. Aceito. Um anel. Uma festa. Lua de Mel. Nossa casa. Novos planos. Mais quartos. Gravidez. Tudo seguia o curso planejado. Eu realizada, esperando nosso primeiro filho. Ele feliz, curtindo todos os momentos, inspirado, criando, escrevendo, reconhecido.

Até ontem.

Ele saiu pra dar aula mas esqueceu o celular. Saí pra uma cirurgia e ouvi o aparelho tocar. Nova mensagem. Li. “A noite foi perfeita, só faltou a manhã. Te amo.”

Agora, ele está sedado na cama. Eu, grávida, bebo a minha nona dose da Absolut Pears. O sabor adocicado da pêra inibe o amargo da vodka, como costumamos fazer com a nossa própria vida. Mas hoje não. O telefone sobre a mesa me dá a resposta que preciso.

Vou até a cama. Não posso matá-lo, não seria justo com meu filho, não seria bom pra mim. Mas posso fazer lembrá-lo, todos os dias, que nem tudo pode ser esquecido, suplantado, escondido, maquiado.

Seguro sua mão esquerda com carinho. Coloco sobre uma toalha. Retiro a aliança. Corto o dedo anelar. Estanco o sangue, desinfeto e dou 6 pontos. Dói em mim e, como uma menininha, começo a chorar.

Apenas um pouco de nada e nada a mais ou a menos.

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