Melancolia

Levanto da cama antes dela acordar e coloco o dinheiro na cômoda. Sei que não precisa, mas prefiro manter o hábito e deixar claro que nada mudou. Ela abandonou a vida de puta mas continua no ramo da sacanagem, agora como advogada. Pego uma maçã na geladeira e vou embora, quero caminhar até a minha casa.

Conheci Lara logo depois que me separei e já estava decidido a não me envolver mais. Mas numa noite saí do meu escritório e fui direto ao Jobi, queria beber sozinho. Diga-se de passagem, uma arte para poucos. Alguns bons chopes depois, estava flertando com uma mulher muito interessante e inteligente, mas sabiamente refuguei e resolvi quebrar um preconceito. Fui pedir auxílio às profissionais. Sem vínculo, sem emoções. Cheguei na Centaurus, um verdadeiro harém. Mas ao me olhar no espelho via um sheik de merda. Me lembro de ter pensado: “pagar por sexo é para os fracassados, mas eu sou um fracassado”.

Na época ainda me culpava por ter sido um filho distante, um marido infiel e um pai ausente. Hoje, esse último ainda me machuca, todo dia.

Ainda no puteiro, fiquei sentado com o uísque na mão esperando a noite acabar. Estava puto por ter entrado naquele lugar, mas também carente por saber que meu apartamento estava vazio e era, inevitavelmente, minha próxima parada. Aí Lara chegou, gostosa demais, olhou dentro dos meus olhos e disse: “Tu tá na merda cara, quer foder ou conversar? Por mim tanto faz, o preço é o mesmo”. Sorri e fomos pro quarto. Conversamos primeiro. Foi ótimo.

Hoje, ela é o mais próximo que eu tenho de um amigo e de uma namorada. Já são oito anos de encontros semanais, sempre na casa dela. Há quatro ela parou com os programas, mas disse que queria continuar me vendo. Ela também se habituou.

Sento no Talho Capixaba para tomar um café e comer a torta de banana. Fico hipnotizado pelo movimento das pessoas apressadas na calçada, sem tempo olham pra tela dos seus telefones e quase esbarram umas nas outras. Me reconheço em cada uma delas, um eu que não existe mais. Tomo o último gole do meu café e só depois termino a torta, gosto de prolongar o sabor na minha boca, o que é bom tem que ser guardado pro final. Resolvo caminhar até a praia. Tento lembrar quando comecei a me afastar das crianças até me tornar o típico pai ausente, que falta aniversários, cancela viagens e aumenta o volume da TV para criar uma barreira de isolamento intransponível.

Chego na praia, ainda vazia, e começo a caminhar. Não quero voltar pra casa. Ela continua vazia e o silêncio me fere, vagarosamente. Mas é hora de seguir em frente. Acelero o passo pra pegar o sinal aberto. Mas nesse momento sou abordado por um homem que cola um cano frio em minha barriga. Ele pega minha carteira, relógio e celular, mas, antes de fugir, olha pra mim e, num ato de piedade, atira. A dor impede que eu agradeça. Desfaleço na Vieira Souto…

Abro os olhos com dificuldade. Sinto meu corpo inchado. Estou num quarto de hospital, vazio como a minha casa. Uma lágrima escorre do meu rosto e levanto a mão para enxugar. Sinto um peso sobre ela. É a mão de Lara que acorda com o movimento, sorri e me dá um leve beijo nos lábios. Pede pra eu esperar e ficar calmo. Caminha até uma sala ao lado e volta com meu filho mais velho, que olha pra mim e chora. Ele me abraça, meu corpo dói, de prazer. A enfermeira chega agitada, reclama e aplica um analgésico direto em minha veia. Os olhos pesam, mas me esforço para mantê-los abertos e chamar Lara. “Dorme comigo, na minha casa?”.

Ela ri e assente com a cabeça. Deixo o sono tomar conta de mim e num lampejo percebo que talvez seja preciso morrer para voltar a viver.

Apenas um pouco de nada e nada a mais ou a menos.

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