Carnaval

Odeio carnaval. Festa pagã. Oportunidade para beber e foder sem compromisso. Qualquer impropério ou atrocidade é justificável. Basta dar um passo atrás e dizer: é carnaval.

As pessoas desfilam pelas ruas com um sorriso forjado. Faz parte da fantasia. Mas todos sabem, no íntimo, que nada muda. O carnaval passa. A vida medíocre e sem sentido fica.

Você pode me achar amargo, mas é apenas senso crítico. Não gosto de escapismos. Tenho meus pés colados ao chão e minha cabeça abaixo do céu.

Também já fui jovem. Tive meus dias de folia momesca. Mas hoje, na maturidade dos meus 40, já não consigo me entorpecer e sair em busca de lábios e diversão fácil.

Busco lembrar quando passei a ter esse olhar mais realista.

Olha a cabeleira do zezé
Será que ele é
Será que ele é

Será que ele é bossa nova
Será que ele é maomé
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

As marchinhas me irritam. Nem minha cerveja eu consigo beber sossegado. O bar vai enchendo e o chope vai esquentando. Bosta de bloco que se concentra em frente ao meu apartamento aqui na Rua Alice.

Vejo os foliões chegando. Sedentos, em busca de um amor passageiro. Eles sabem que o amor morreu. Foi profanado pelas pessoas que passaram a falar “eu te amo” depois de qualquer beijo na boca. Foi deturpado pelos personagens das novelas, que dizem amar, mas traem desenfreadamente. Que porra de amor é esse?

Eu já amei. Amor mesmo. Com A maiúsculo. Helena. Linda. Morena. Pernas roliças e cabelos cacheados. Olhos negros. Presença incrível. Inteligente e bem-humorada. Todos riam de e para Helena. Me embebedava com suas conquistas. Seu sucesso me bastava. Minha vaidade era compensada com uma verdade irrefutável: eu comia Helena e todos invejavam isso, homens e mulheres. Ela adorava carnaval.

Mas Helena me deixou. Sonhos demais, realidade de menos. Peço mais um chope e percebo que essa lembrança ainda dói.

Bandeira branca, amor
Não posso mais.
Pela saudade
Que me invade eu peço paz.

A concentração do bloco começa a encher. Grupos chegam esbanjando alegria alegórica. Todos querem uma lembrança de carnaval. Pode ser beijo, trepada, risada. Vale até o vácuo etílico de memória, não lembrar de nada é uma vitória conquistada. “Aproveitei meu carnaval”. Babacas.

Tomo mais um chope e uma ruiva, fantasiada de Pedrita, entra no Serafim. Gostosa. Olho sem pudor. Ela percebe. Retribui. Sem vergonha. Pega uma lata e segue em direção às amigas. Ainda me olha mais uma vez. Acredita que eu posso ser seu troféu. Coitada, deve ter 3 neurônios.

Ordas se aglomeram no bar. O chope, já não tão gelado, precisa descer mais rápido. Sou o único a beber sozinho. Isso me deprime. Não por mim. Estou bem. Mas por eles. Encarar a realidade de frente, sem subterfúgios, é para poucos. Os fracos se juntam e buscam respostas fáceis. O carnaval é uma delas. Uma farsa.

A estrela d’alva no céu desponta
E a lua anda tonta com tamanho esplendor
E as pastorinhas pra consolo da lua
Vão cantando na rua lindos versos de amor

Um cara me pede ajuda. Quer que eu amarre a capa que soltou. É o Batman. Ajudo. Se fosse mesmo o herói dos quadrinhos estaria em casa, puto da vida. No carnaval até a corja dá um tempo na gatunagem. O Homem Morcego me agradece. Depois pergunta qual é a minha fantasia. Filósofo, respondo. Ele ri, me dá um tapinha nas costas e sai. Volta pra rua, pro seu grupo. Idiota.

Mais um chope. Tenho vontade de fumar, não posso. Sou ex-fumante. Peço um varejo. É carnaval. Me sinto estranho. Uma certa angústia. Gente demais. Gritam que o bloco vai sair. Quase acredito em Deus, pela possível volta do silêncio. Mas o bloco não sai.

Vejo um cara fantasiado de Cotonete. Engraçado. Uma mulher está de Mona Lisa, com a moldura presa às suas costas. Criativa. Bonita. Cacete, estou mal. Deve ser o calor. Estou mais irritado que o habitual.

Peço mais um chope. Esse bloco não vai embora. Que merda. Do meu lado chega o Coringa. Temo pelo Batman. Acho melhor avisar. O Cavaleiro das Trevas está do outro lado da rua. Olha pra mim e faz sinal.

Se o Bloco não sai, saio eu. Alegria em excesso. Ilusão barata. Pago e vou pra rua. Sentido contrário, claro. Olho pra trás. Quanta gente. Alienação em massa. Desço a rua. Olho pra trás de novo.

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar!
Dá a chupeta, dá a chupeta, ai, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar!

O Batman corre até mim. Traz um chapéu e um cavanhaque postiço. Rejeito. Ele diz que se quero ser filósofo, que eu seja um dos grandes. Francis Bacon. A piada é boa. Não quero ser desagradável. Subo a rua. O bloco sai, finalmente.

O Robin, amigo do Batman, me dá uma cerveja. Tá gelada. Surpresa. Agradeço. Acompanho a marchinha e vejo a ruiva. Ela continua me olhando. Chego perto e deixo que nossos braços se encostem. Pele macia.

Ela pega minha mão e sorri. Subimos a Rua Alice. Sigo a multidão.

Apenas um pouco de nada e nada a mais ou a menos.

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