Encontro

Agora, atrás das grades frias, só penso em você. Não entendo como vim parar aqui e faço questão de não me aproximar de ninguém. Não quero apego, nem conformismo, quero sair daqui pra te encontrar. Preciso de você. Busco seu cheiro que me inebria e me mantém em transe, como uma boa dose de pó. Só assim é possível resistir a esse lugar.

Espero pelo barulho das chaves que diariamente liberta um. Aguardo a minha vez. Preciso te rever, renovar nossos momentos. Temo que a crueldade do tempo me faça esquecer seu rosto, o contorno das suas pernas, o balanço do seu corpo e o seu cheiro.

Confesso, me drogo diariamente pra te encontrar na minha alucinação. Meu surto é meu porto seguro, pois é lá que me renovo, te encontro,  relembro do que fomos e fantasio o que ainda vamos ser.

Ouço passos no corredor. Ele chega e me olha, se acha o São Pedro por ter as chaves do céu. Apesar do desprezo que percebo em sua expressão corporal, ele sentencia que posso ir embora. Malditos. Quanto tempo perdi aqui, sentindo a frieza das grades e a presença imunda desses imundos?

Recebo um molho de chaves, carteira com cartão e algum dinheiro e duas fotos. São suas. São nossas. Corro pra casa. Não te encontro e não te culpo, como poderia saber que eu estava livre de novo. Vou ao bar que frequentamos, mas ninguém me responde quando pergunto por você. Peço uma cerveja e um varejo. Meu corpo sente falta do misturado da cadeia.

Volto pra casa, preciso te encontrar. Só você pode me curar da dependência que aceitei pra aguentar a sua ausência, mas você não está. Minha cabeça explode, tenho vontade de vomitar. Vomito antes de chegar ao banheiro. Cansado, tento relaxar, só preciso de alguns minutos.

Desperto com a lembrança de nós dois juntos no nosso lugar secreto, onde tirei sua virgindade e você me apresentou ao amor. Ouço um choro. Corro pra lá. Tenho certeza que você chora de saudades. Chego suado, esgotado. Mais uma vez eu não te encontro. Mas as lembranças me arrebatam, me machucam, te machucam, me sufocam, te sufocam… te enterram e me fodem por completo.

Olho pra terra revolvida, cavo com as mãos e encontro a sua.

Apenas um pouco de nada e nada a mais ou a menos.

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