Vocação
Peço meu uísque duplo, sem gelo, com um pão de queijo. São dez e meia da manhã e sinto a brisa bater nas minhas costas, anunciando um dia fresco de inverno. Hoje vai ser só destilado. O atendente da padaria é novo e se surpreende com meu pedido. Puro preconceito. Se fosse um peão de obra ou mendigo pedindo uma 51 aposto que ia achar graça. Mas com o tempo ele se acostuma, essa é minha rotina diária. Começo a beber cedo e só paro quando o sono me derruba. O sono mesmo, a bebida não me derruba, ela me eleva.
Mato a dose e já peço um conhaque com café. O rapaz faz uma cara estranha e já começa a me irritar. Acho uma falta de respeito quando as pessoas invadem meu espaço e tentam indagar: “por que você bebe tanto?”. Eu nunca interroguei ninguém perguntando por que ela come tanto. Por que ela mente tanto. Por que ela cospe tanto enquanto fala. Porra, eu não faço esse tipo de pergunta cretina. Eu só cuido da minha vida e foda-se o resto. Mas, como fui muito bem educado pela minha mãe, evito as desavenças e respondo: “eu bebo porque eu posso”. Alguns babacas até tentam argumentar que poderiam beber também, mas é mentira. Viver pra beber é um estilo para poucos. Não é uma escolha, é um dom. Minha vocação.
Peço mais um conhaque e reflito sobre isso. O que realmente incomoda essas pessoas, que desaprovam meu estilo, é que sou um cara educado, culto, inteligente e bonito, porque não. Elas gostariam que eu fosse o bêbado tradicional. O estigmatizado cara que tem um grande drama familiar ou pessoal. Abandono de lar, traição, falência, solidão, essas merdas. Mas na minha vida não tem espaço pra isso. Abri mão das convenções sociais pela birita. Bebo todo dia, o tempo todo. Bebo pra caralho. Vivo pra beber e bebo pra viver.
Mas não me pergunte o motivo. É com ela que eu me encontro. Nem me lembro como eu sou sóbrio, possivelmente porque não sou eu. Até hoje, quando vejo o líquido sendo derramado dentro do meu copo sinto um frio na barriga. Quando a cerveja chega gelada na minha mesa, meu peito infla e preciso me conter pra não derramar uma lágrima. É muita emoção.
Claro que minha vida não é só beber, já viajei o mundo inteiro e continuo viajando. Em outubro tiro férias dos botecos, pra tristeza dos portugas, e vou beber em Munique. Depois, sempre passo em Amsterdam. Nesses dois lugares me sinto em casa. Essas viagens, junto à minha “excentricidade”, construíram um status quo interessante, atraente para as meninas novas que buscam homens mais experientes e com vivência internacional, parece baboseira de currículo profissional mas é assim que é.
Mesmo assim, tirando a bebida, poucas coisas me emocionam hoje em dia. Já vivi minha grande paixão, escrevi meu livro e tenho uma filha maravilhosa. Árvore é o cacete. Hoje minha ex-mulher, que me adora, é casada com um cara bacana que cuida da minha filha como se fosse dele. Não posso reclamar. Quando minha garota resolve me visitar só bebo vodka, pra não deixar cheiro. Mas isso só acontece uma vez por ano, a Califórnia não é logo ali.
Peço mais uma dose dupla, o assustado derrama no copo ainda surpreso e não consigo segurar uma lágrima que escorre no meu rosto.




