Sinceridade
“Ninguém é o que é, mas sim aquilo que se quer ser. Na verdade, acabamos sendo aquilo que os outros acham que somos”. Foi depois dessa afirmação, feita por seu professor de filosofia, que César começou a tomar uma delicada e controversa decisão.
Ele já vinha cansado da efemeridade de suas relações, iniciadas através do desgastaste e teatral jogo de sedução nas noites cariocas. Por isso, resolveu não mais interpretar. Optou pela sinceridade. Seria simples e direto, como ele achava ser. Não usaria nenhum outro subterfúgio para se dar bem. Só assim encontraria uma mulher para uma relação mais duradoura. Só assim encontraria a sua mulher.
Pode colocar sua teoria em prática no dia seguinte, quinta-feira. Aniversário de uma amiga da faculdade. Festa na Matrix. Para esquentar, antes, cerveja no boteco. Já na boate, assim que entrou, pegou uma Heineken e foi dar uma olhada. Confiante, fez sua primeira tentativa. “Oi, tava te olhando e você é linda, mas o que me chamou atenção mesmo foi a sua bunda, maravilhosa”. Slap. Na cara. Surpreso, não se deu por vencido e esperou outra oportunidade. Ela olhou pra ele, que chegou e disse: “Vou ser sincero, você é sem dúvida a mulher mais gostosa que vi até agora, vamos…”. Sem chance de completar. Ela virou as costas e sumiu.
Estava difícil, era uma estratégia diferente e as mulheres ainda não estavam acostumadas. Mas ele levava fé. Ia dar certo. Era necessário. Passou uma morena e ele caprichou. “Meu Deus, eu poderia passar horas sem sair da cama com você ao meu lado.” Ui, na cara de novo. Ele ainda tentou mais três vezes. Talvez precisasse repensar sua estratégia, mas seria frustrante.
Foi ao bar refletir. Pediu outra Heineken e um Jack. Não estava disposto a mudar. Interpretar de novo, nem pensar. Se quisesse ser ator teria feito teatro, porra. Mas aí ela chegou, filmou ele de cima a baixo, sem discrição. Ele fez o mesmo. Cabelos curtos, cordão de prata e uma discreta tatuagem no pescoço. Tomou a iniciativa. “Você realmente é o meu número, mas preciso te dizer uma coisa, teu peito é lindo”. Ela sorriu e respondeu: “Você parece ser magro demais, mas sua bundinha me chamou atenção. Falso magro?”.
E assim começou o primeiro relacionamento da história baseado em uma sinceridade ímpar, nunca vista antes. Não é a toa que estão juntos até hoje e passam por algumas situações constrangedoras com seu casal de filhos, sinceros de doer os ossos. “Mãe, essa mulher é realmente muito, mas muito brega, bem que você disse”. “Cara, não é porque você é chefe do meu pai que eu preciso rir das suas piadas, certo?”.



